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Perfumes e Identidade de Gênero: O Fim das Prateleiras Divididas por Sexo

1 min de leitura Perfume
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Perfumes e Identidade de Gênero: O Fim das Prateleiras Divididas por Sexo


Era a vez do meu pai.

Ele entrou na perfumaria, parou diante das prateleiras e fez aquilo que sempre fez. Virou à esquerda. Para o lado dos homens. Como se houvesse uma parede invisível separando o que ele podia cheirar do que não podia.

Eu fiquei do outro lado, hipnotizada por um frasco de rosa damascena que prometia ser exuberante, denso, escuro como vinho. Olhei para ele e perguntei: "Por que você nunca cheira esses aqui?"

Ele riu. "Esses não são para mim."

Foi nesse exato segundo que percebi: a indústria da perfumaria passou décadas convencendo bilhões de pessoas de que o nariz tem sexo. E nós acreditamos.

A boa notícia é que isso está acabando.

A invenção de uma fronteira que nunca existiu

Antes de qualquer crítica, vale uma constatação histórica que talvez você não saiba. A divisão rígida entre perfume "de homem" e perfume "de mulher" é, em escala histórica, ridiculamente recente. No século XVII, Luís XIV se perfumava com âmbar, almíscar, rosa e flor de laranjeira. Napoleão usava colônia de bergamota e neroli aos litros. Casanova era fissurado em jasmim.

Por mais de mil anos, perfume era perfume. Uma pessoa rica se perfumava porque podia. Pronto.

O Egito Antigo tratava a fragrância como prática espiritual, não como acessório de gênero. Sacerdotes, faraós, faraonas e cortesãos usavam o mesmo kyphi, a mesma mirra, o mesmo óleo de lótus. Na Roma imperial, generais voltavam de campanha cobertos do mesmo bálsamo de Judeia que perfumava as imperatrizes. No mundo árabe medieval, oud e rosa eram patrimônio comum de homens e mulheres aristocráticos. Na corte de Versalhes, contava o luxo do aroma, não a anatomia de quem o vestia.

O conceito comercial de fragrância masculina como uma categoria separada nasce essencialmente no fim do século XIX, com a chegada das primeiras colônias industriais associadas à figura do homem moderno, racional, urbano. Floresceu de vez no pós guerra, quando a publicidade percebeu que vender o mesmo produto duas vezes (uma para ele, uma para ela) era um negócio extraordinário.

Vinte e cinco notas viraram dois corredores. Dois corredores viraram duas identidades.

E foi assim que aprendemos a duvidar do nosso próprio nariz.

A ciência do olfato não conhece sexo

Vale insistir nesse ponto porque é o pilar de tudo. O olfato humano é talvez o sentido mais democrático que temos. Você possui em média cinco milhões de neurônios olfativos, dispostos em uma faixa de tecido pequena no alto da cavidade nasal. Eles se conectam diretamente ao sistema límbico, a região do cérebro responsável por emoção e memória, sem passar pelos filtros racionais que governam visão e audição. É por isso que um cheiro pode te jogar de volta na cozinha da sua avó em menos de um segundo.

Nada disso varia por gênero. A literatura científica reconhece, sim, pequenas diferenças estatísticas em sensibilidade olfativa entre populações masculinas e femininas, parcialmente moduladas por hormônios ao longo do ciclo de vida. Mas essas diferenças são pequenas, individuais e nada têm a ver com preferências por notas. Não existe um receptor de baunilha "feminino" e um receptor de tabaco "masculino". A molécula é a mesma. A pele é pele. O nariz é nariz.

O que nos faz preferir cheiros é uma combinação rica e individualíssima de genética olfativa pessoal (cada um de nós tem um pequeno repertório próprio de receptores funcionais), memória afetiva precoce, vivência cultural e experiência consciente. Gêmeos idênticos têm preferências olfativas diferentes. Irmãos criados na mesma casa também. O que dirá um corredor inteiro de uma perfumaria divido por sexo presumindo que metade da humanidade tem o mesmo gosto.

O que a perfumaria descobriu (de novo) sobre o seu olfato

Aqui está o dado que pode te incomodar: nenhum estudo neurocientífico sério jamais demonstrou que homens e mulheres respondem de forma significativamente diferente às mesmas moléculas olfativas. A percepção de aroma varia com genética individual, memória, cultura, estado hormonal momentâneo, hora do dia. Não com cromossomo.

O que existe são associações culturais. Você aprendeu, antes mesmo de saber ler, que baunilha é "doce demais para homem" e que couro é "sério demais para mulher". Ninguém te explicou isso. Você simplesmente absorveu de um milhão de comerciais, embalagens cor de rosa, capas de revista, perguntas de balconistas em perfumarias.

E a perfumaria contemporânea, principalmente a partir dos anos 2010, começou a desmontar esse aprendizado por dentro. Perfumistas como Christophe Raynaud, Fabrice Pellegrin, Véronique Nyberg, Anne Flipo passaram a misturar deliberadamente o que o mercado havia separado. Rosa em fragrâncias vendidas para homens. Tabaco e couro em criações vendidas para mulheres. Baunilha cruzando todos os corredores. Lavanda cremosa, especiarias quentes, oud, flor de laranjeira, íris, todos circulando livremente.

A pergunta deixou de ser "isso é de homem ou de mulher?". A pergunta passou a ser "isso combina com você?".

A geração que jogou o manual fora

Pesquisas recentes da indústria de fragrância apontam algo que quem trabalha com beleza já sente na pele. Pessoas nascidas a partir dos anos 1990 compram fragrâncias com uma lógica fundamentalmente diferente. Elas escolhem por nota olfativa, por humor, por ocasião, por estação do ano. O rótulo "for him" ou "for her" virou ruído visual, ignorado.

Casais dividem o mesmo frasco. Mães roubam a fragrância do filho adolescente. Adolescentes andam de mochila pesada e jaqueta gigante usando jasmim. Executivas trocaram suas flores de chá por âmbar e patchouli.

A perfumaria de nicho consagrou o movimento primeiro, com casas como Le Labo, Maison Margiela e Byredo apresentando praticamente todo o catálogo como unissex. Mas o mais interessante é o que aconteceu depois. A perfumaria de mercado, a grande, a que você encontra no shopping da sua cidade, foi atrás. Reformulou linguagens, redesenhou frascos, reorganizou comunicação. E começou a apresentar criações que, na prática, dispensam o gênero como categoria, mesmo quando ele aparece formalmente na embalagem por convenção da indústria.

Três exemplos rápidos ilustram esse momento melhor do que qualquer manifesto. Pegue uma criação como o Rose 1969 de Rabanne. Tecnicamente catalogado em uma linha masculina, é construído em torno de uma overdose absurda de rosa damascena, com lichia na abertura e patchouli no fundo. Você consegue imaginar essa fragrância só em homem? Eu também não. Em pele feminina ela vira algo sedoso e profundo. Em pele masculina vira algo magnético e fora do padrão. Em qualquer pele, ela quebra a regra. E foi exatamente para isso que foi feita.

Pegue agora o Phantom Parfum de Rabanne. No papel, é um masculino. Na prática, é um aromático fougère com baunilha quente, vetiver magnético e fusão de lavanda. Baunilha quente em masculino é, por si só, um estilhaço na vidraça da convenção. Em uma mulher que adore notas amadeiradas e doces ao mesmo tempo, esse perfume funciona com uma intensidade rara. A barreira é só a etiqueta.

E pegue o Fame Eau de Parfum de Rabanne, formalmente um feminino, mas construído com jasmim puro, manga, incenso e sândalo. Sândalo é uma das notas mais "neutras" da história da perfumaria, presente em obras antigas que circularam por séculos sem qualquer marcação de gênero. Em um homem que se sinta confortável com florais radiantes, Fame não soa estranho. Soa interessante. Soa como uma escolha consciente.

Três perfumes. Três rótulos. Zero regras.

O que muda quando você tira o gênero da equação

Quando você para de comprar perfume pelo lado "certo" da prateleira, três coisas acontecem.

A primeira é que seu olfato volta a funcionar. Soa óbvio, mas não é. A maioria das pessoas, quando entra em uma perfumaria, já se autocensura antes do primeiro borrifo. Homens passam direto pelos florais. Mulheres pulam o setor de couro e tabaco. Os dois grupos perdem metade do mapa olfativo do mundo só para confirmar uma expectativa social.

Quando você dá permissão a si mesmo para cheirar tudo, descobre coisas estranhas sobre você. Talvez você seja uma mulher que detesta floral branco e adora notas defumadas. Talvez você seja um homem que se reconhece em uma rosa intensa e nunca em uma colônia cítrica. Talvez você seja uma pessoa não binária que finalmente encontra um aroma que não pede para você performar nada.

A segunda coisa que acontece é que sua coleção encolhe e melhora. Pessoas que compram dentro da caixa de gênero acabam acumulando fragrâncias parecidas, do mesmo nicho de notas, porque o mercado direcionado a um único gênero tende a oferecer variações sobre os mesmos temas. Pessoas que compram livremente acumulam fragrâncias contrastantes, com personalidades distintas, que cobrem ocasiões e humores diferentes. Você passa a ter um repertório, não um clone.

A terceira é talvez a mais interessante. Você começa a perceber que o cheiro é uma forma de auto-expressão muito mais radical do que a roupa. Roupa todo mundo vê. Perfume só sente quem está perto. É íntimo. É uma decisão que você toma para si, e que conta algo sobre você para um círculo pequeno de pessoas. Tirar o gênero dessa decisão é devolver a você a soberania sobre uma das ferramentas mais subestimadas de identidade pessoal.

Layering: a técnica que escancarou de vez a porta

Existe uma prática contemporânea de uso de fragrância chamada superposição, ou layering. A ideia é simples e ao mesmo tempo subversiva. Você usa duas, três, às vezes quatro fragrâncias ao mesmo tempo, em camadas, criando um aroma que é só seu.

Pode parecer detalhe técnico, mas o layering fez algo enorme pelo debate de gênero na perfumaria. Quando você combina uma fragrância "masculina" e uma "feminina" no mesmo corpo, no mesmo dia, a categoria simplesmente colapsa. O que sobra é o cheiro. O que sobra é você.

Algumas combinações funcionam de forma quase científica. Uma fragrância floral intensa por baixo, uma amadeirada por cima. Uma cítrica fresca na parte interna dos braços, uma especiada no pescoço. Uma criação rica em rosa misturada a uma rica em couro. Casais que dividem frascos descobrem que misturar o perfume de um com o do outro gera uma terceira fragrância, autoral, que não pertence a nenhum dos dois e ao mesmo tempo pertence aos dois.

Não há regra. Há experimentação.

E experimentar pressupõe que você não está mais perguntando se pode.

Estações, ocasiões e a libertação do calendário olfativo

Outra fronteira que está caindo junto com a divisão por gênero é a divisão por estação. Aquela ideia de que perfume amadeirado pesado é só para inverno e cítrico solar é só para verão era, em boa parte, um derivado do mesmo raciocínio segmentador. Pessoas que estão se reapropriando do olfato descobrem que pode ser maravilhoso usar uma fragrância densa de oud em um dia gelado de inverno e absolutamente delicioso usar essa mesma fragrância, em dose menor, em uma noite quente de verão à beira do mar.

A regra simples é: na pele quente, o perfume projeta mais e evolui mais rápido. Na pele fria, ele se segura, fica colado, dura horas a mais. Conhecer isso te liberta para usar o que você ama o ano inteiro, ajustando apenas a quantidade. Uma rosa profunda no inverno, em duas borrifadas no pulso, vira uma assinatura presente. A mesma rosa no verão, em uma única borrifada atrás da orelha, vira uma aura discreta e intrigante.

A mesma libertação se aplica à ocasião. Não existe um perfume "de trabalho" e um perfume "de balada". Existe a sua intenção naquele dia. Se você quer se sentir composta em uma reunião difícil, talvez uma fragrância amadeirada e contida funcione melhor do que um floral exuberante. Se você quer começar uma noite com energia, talvez uma criação especiada e quente seja o trilho sonoro certo. Você escolhe pelo humor, não pela agenda.

Casais, amigos, famílias: o perfume como território comum

Uma das transformações mais bonitas que esse movimento traz é o que acontece dentro das casas. Casais que antes tinham dois nichos olfativos separados, dois universos paralelos no banheiro, começam a compartilhar fragrâncias. Não no sentido prático de dividir um único frasco, mas no sentido afetivo de criar memórias olfativas em comum.

Famílias inteiras passam a ter uma "fragrância de casa", um perfume que circula entre membros, que pega em uma manga de moletom e aparece em outra, que a pessoa adolescente leva sem pedir e a pessoa mais velha empresta sem perguntar. Esse compartilhamento, antes proibido pela rigidez das categorias, vira gesto de intimidade.

Amigos descobrem fragrâncias um pelo outro. Você experimenta o perfume da sua melhor amiga e percebe que aquilo, que você nunca consideraria comprar, casa surpreendentemente com a sua pele. Você empresta o seu, descobre que ele se transforma quando vai parar em outra química corporal. Cada pele faz uma versão diferente da mesma criação, e isso é parte da mágica.

Quando o gênero deixa de ser a primeira variável de escolha, o perfume vira o que sempre poderia ter sido: uma linguagem afetiva compartilhada, não um marcador de fronteira.

Como começar, na prática

Se você quer se reapropriar do seu nariz, a sugestão é abandonar três hábitos.

O primeiro é parar de perguntar para o balconista qual é o "masculino" ou "feminino" mais vendido. Pergunte qual é o mais rosa, o mais oud, o mais aquático, o mais especiado. Pergunte por nota olfativa. Pergunte por humor. Pergunte por estação do ano.

O segundo é cheirar primeiro, ler o rótulo depois. Coloque a fragrância em uma fita de papel. Caminhe pela loja com ela. Volte dez minutos depois e cheire de novo. Se você gostar do que sente, leia o nome. Se for catalogado para o "outro" gênero, vai estar tudo bem. Você já decidiu.

O terceiro é montar uma rotação ousada. Se você tem três fragrâncias e todas pertencem ao mesmo corredor, falta variedade. Tente forçar uma quarta vinda do corredor oposto. Pode ser que ela vire sua preferida.

Para quem está começando, formatos travel size, com volumetria de até 30 ml, são excelentes laboratórios. Você testa sem grande compromisso, descobre se a fragrância evolui bem na sua pele ao longo do dia e, principalmente, começa a entender quais famílias olfativas conversam com você de verdade, independente do que está escrito na caixa.

O fim do corredor

A perfumaria está, lentamente, refazendo suas lojas. Algumas marcas já organizam o expositor por família olfativa, não mais por gênero. Florais, amadeirados, orientais, chipres, fougères, aromáticos. Você anda pela loja seguindo o seu nariz, não a sua certidão de nascimento.

É uma mudança aparentemente pequena, mas que diz algo grande sobre o momento. Estamos saindo de um século em que o consumo de beleza foi sistematicamente segmentado por uma única variável, o gênero atribuído ao nascer, para entrar em um período onde a segmentação volta a ser feita pelo que realmente importa: gosto, identidade, memória afetiva, estilo pessoal.

Os perfumistas estão criando para um corpo humano, não para um corpo masculino ou um corpo feminino. As marcas estão começando a comunicar fragrâncias por personalidade, não por sexo. As pessoas estão escolhendo por afinidade, não por permissão.

E talvez, em alguns anos, a pergunta do meu pai sobre se aquele perfume "era para ele" soe tão estranha quanto perguntar se determinada cor "é para ele". A cor é cor. O cheiro é cheiro. O perfume é perfume.

Lembra do frasco de rosa que eu cheirei naquele dia, do outro lado da loja? Comprei. Usei por meses. Em algum momento, deixei aberto na mesa de cabeceira e ele apareceu, sem que eu pedisse, no pescoço do meu pai.

Ele me devolveu o frasco no dia seguinte com uma frase curta. "Eu gosto desse aqui."

A parede invisível tinha desaparecido. Sem manifesto, sem discurso, sem campanha. Só uma rosa, uma pele e um nariz que finalmente foi deixado em paz para sentir o que tinha vontade de sentir.

É isso que o fim das prateleiras divididas por sexo vai significar, no fim das contas. Não é uma revolução estética. É um pequeno gesto de devolução. A perfumaria está te devolvendo o seu olfato. Você só precisa aceitar de volta.

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